desenho e design

A – Elementos de arte sequencial (em construção)

Narrativas de construção visual

Artrologia | Diegese | Efabulação | Iconização | Onomatopeia | Peritexto

A Banda Desenhada envolve uma cultura centrada numa estrutura cronológica de eventos, factos equacionados e traduzidos, segundo um predomínio de critérios de notação e apresentação visual. Na natureza da sua essência pressente-se um dos arquétipos fundamentais para o desenvolvimento e geração de uma prevalência humana em comunicar e tornar imemoriais factos e episódios, e de certo modo garantir a presença de um mundo efabulatório, em que o tempo e a acção serão sempre realidades visitáveis.

Na sua essência, esta é mais uma forma de contar histórias, narrar realidades já eclipsadas pelo tempo. À semelhança da tradição oral que centra atenções, congregando as gentes em torno da transmissão de um passado mais ou menos remoto, enquanto base essencial para uma construção sólida de um futuro promissor, todas as histórias sejam orais ou desenhadas, mantêm desde tempos imemoriais esse papel único de fascinação. 

Sobretudo, quando contamos histórias, resumimos e organizamos memórias e emoções, reconstruindo e partilhando uma memória, ou até uma sequência emocional alusiva ao passado.

Os ingredientes de uma história são diversos e transformam-se em factores de significação, argumentação e edificação | aedificatio. 

A perspectiva – enquanto ponto de vista a partir do qual a história é sensivelmente construída e narrada.

As personagens – segundo os níveis de participação e acção.

O contexto – recriando o ambiente, em que a história de desenvolve.

O imaginário – como conjunto que envolve um acervo cultural de imagens criadas e percebidas em contexto, relevando-se enquanto base ficcional na evocação do real que a própria história transporta.

A linguagem – Sintaxe e semântica dos elementos grafados | Dar forma e significação. 

Uma edificação estrutural é fundamental para gerar uma organização cronológica, percursora de uma dimensão ficcional e do controlo temporal da acção, que em súmula define a diegese narrativa em qualquer conteúdo historiado, quer em cinema, quer em banda desenhada.

A Banda Desenhada enquanto forma de arte sequencial articula-se dentro de três níveis de codificação. Aliás a acção articular associada à noção de um modelo de estrutura articulável, pontuam a organização geral das construções narrativas em BD. O termo articulação é referido em 1999, por Groensteen, como conceito chave na enunciação de uma estrutura formal BD, tanto geral como contígua, inerente ao processo criativo e à natureza da sua fruição.

A – Códigos formais de composição | Layout

B – Relação sequencial linear entre vinhetas | Artrologia directa ou restricta

C – Relação referencial de reposição e evocação entre quaisquer elementos a partir de propriedades de semelhança de forma e conteúdo | Artrologia geral

A | Os códigos formais de composição são gerados e regulados segundo um plano, ou layout, em harmonia com definições de uma topologia geral, sem dependência gráfica total relativamente à forma e dimensão dos elementos a colocar (compor) em campo ou em cena. Nesta fase a adopção de um plano de abstracção é essencial, enquanto norma reguladora dos elementos em cena. Como abaixo se apresenta, a cruz e o paralelismo estabelecem relações principais, nas narrativas visuais criadas por Harvey Kurtz.

Harvey Kurtz “Lost Battalion!” estudo s/ papel vellum | 1952 | Para “Two-Fisted Tales” no. 32 (March–April 1953)

in The art of Harvey Kurtzman / de Denis Kitchen e Paul Buhle / ISBN 978-0-8109-7296-4

Estabelecem-se em consonância às relações de vizinhança entre vinhetas, como termo de contiguidade, preparando precedências de natureza cronológica e percursoras da criação de um timbre gráfico e visual, que influencia a apresentação da narrativa. A paginação ou estrutura geral de uma página permite introduzir esse leque de alternativas topológicas espaciais e preparar um conjunto de coerência plena, relativamente às dependências que se seguem:

> Dimensão, configuração e posição grafam a relevância do papel final dos elementos da narrativa.

> A constituição de elementos aplicados em camadas sobrepostas é uma rotina frequentemente usada em BD, frequentemente designado por incrustação. A BD seguinte apresenta campos narrativos incrustados. 

> O Intervalo entre as vinhetas constituí o espaço de apoio e definição do quadro, definindo assim o hiper-quadro essencial à estrutura temporal segmentar da BD.

Loupe “La Bible” / Dargaud Editeur 1984 / ISBN 2-205-02570-8. Três Pranchas da BD e respectivas estruturas de distribuição e composição. Apesar do autor manter constante o espaço entre vinhetas, introduz um esquema dinâmico de modulação e dimensionamento.   

> Modularidade | Organização e padrão de colocação dos elementos em página estabelecem o ritmo global do conjunto, declarando estados de regularidade ou irregularidade, nivelamento ou acentuação, etc., como ordem dicotómica geradora da variabilidade narrativa.

Grelhas extraídas da Banda Desenhada apresentada anteriormente e da autoria de Jean-Jacques Loup. A Grelha da esquerda é o resultado da sobreposição das três estruturas de distribuição (Layout), referente às páginas apresentadas e a última Grelha é uma sobreposição da totalidade das variações em uso ao longo da edição. Um modelo aproximado à grelha original utilizada pelo autor, como chave estrutural na procura de uma colocação coerente e harmoniosa dos elementos, ao longo das páginas publicadas. A norma 16 campos a 4 x 4 parece determinar a estrutura base da grelha utilizada. Pequenas variações são naturais em BD. 

B | Elos Sequenciais | Artrologia restrita. O conceito de artrologia restrita fundamenta-se nas ligações necessárias entre os segmentos ou elementos da narrativa. Essa estrutura sintagmática implica uma dependência real entre os diversos componentes, em consequência para que a narrativa se torne compreensível é essencial construir um resultado sequentemente ordenado.

Entre a iteração (repetição) e a transformação estrutura-se a sequência narrativa da BD.

> Transições espaço tempo – O espaço e o tempo são relações indetermináveis em BD. O leitor é convocado a reconstituir os hiatos entre as vinhetas e a suavizar mentalmente as transições, segundo um resultado em que o ritmo e a duração finais, também se tornam numa sua recriação.

> Variações plástico expressivas – O facto de uma quase infinita variabilidade de resultados por via de uma acção autoral e expressiva, mais o acesso a recursos plásticos diversificados, garantem um vasto campo de criação. Singular pela sua relação temporal implícita, mas também congruente pela sua colocação inter formal, como expressão mental e desenho de uma pré-cinematografia, na dramatização e representação de um discurso gráfico e narrativo.

A título de exemplo encontra abaixo sintetizado um diagrama sobre o enquadramento do quadro expressivo e interpretativo. Enquanto sintagmas de uma relação partilhada entre as gramáticas da BD e a linguagem cinematográfica, estes elementos resumem o leque de relação, construção e extinção. Combinados com uma visão particular, própria em cada autor, torna-se fácil estimar a multiplicidade de resultados expressivos que apenas este grupo de variantes oferece. 

…| Vinheta | Quadro | Enquadramento | Ângulo | Ponto de Vista | Composição | Cor Dominante | Textura | Presença | Matéria | Relação luminica | Claro escuro | Expressão |…..

Variações plástico expressivas > Dinâmica Plano | Quadro | Enquadramento | Ângulo | Ponto de Vista

Uma análise a partir de três das pranchas da “La Bible”, Loupe, já apresentadas anteriormente.  Aplicando uma filtragem de fusão dos valores de preto e branco da imagem (Average), obtém-se um resultados sinóptico das vinhetas em cada prancha sucessiva.  Podemos extrair uma ideia mais geral do equivalente luz em cada vinheta e, assim, ler a oscilação e o ritmo dos valores de claro / escuro.

…| Vinheta | Quadro | Enquadramento | Ângulo | Ponto de Vista | Composição | Cor Dominante | Textura | Presença | Matéria | Relação luminica | Claro escuro | Expressão |…..

Variações plástico expressivas > Dinâmica Plano | Relação luminica | Claro escuro

Se por um lado a expressividade autoral é uma qualidade pessoal e inconfundível, a variedade dos elementos estruturais da BD, diversifica a riqueza formal da comunicação e enriquece um discurso visual, plasticamente interessante.

C | Artrologia geral

A BD final é um conjunto de Pranchas, afixando Bandas e Vinhetas, nesta organização pretende-se e evidencia-se um sentido de coerência, sequência e harmonia, apesar dos inúmeros problemas que a diversidade e a complexidade de um progressivo culminar narrativo possa introduzir.

Na verdade a realidade plástica de uma BD não depende somente da construção interna em cada vinheta, mas, também, de um sentido global coerente que todas as pranchas apresentam, como se tivessem sido tecidos, sem mácula e da mesma forma, assim participando de um tapete único. Daí que a palavra tecelagem seja também utilizada, além do termo artrologia. Ambas são adequadas para transmitir uma ideia central sobre as problemáticas inerentes à organização e à criação na área da BD. A artrologia refere uma notação articular específica, entre os elementos em presença numa narrativa figurada, construindo-se de modo encadeado uma sequência articulável e compatível. O resultado seguinte remete-nos para uma coerência do tipo tecidual, como um produto obtido após diversas passagens e adições, criando-se os desenhos e a trama, pleno de referências cruzadas, em tudo, uma obra final e de conjunto, que pretende-se brilhante e comunicativa.

Em 1999, Thierry Groensteen elegeu a palavra Artrologia (1) para designar e descrever a organização segmentar, inconfundível na Banda Desenhada, mas também, extensiva a outras formas de arte sequencial. Como chave estrutural e compositiva, esta ideia interpreta uma noção parcelar dinâmica (explícita ou implícita), enquanto abordagem de alinhamento taxinómico na organização de uma narrativa visual em BD.

(1) A artrologia é o ramo da anatomia que estuda as articulações do corpo humano e todo o seu conjunto de movimentos.

Elementos de Texto e imagem na BD

Em BD as relações entre texto e imagem estão ligadas de modo profundo, perfazendo a globalidade de um corpo articulado, que, em suma, caracteriza toda a ilustração narrativa. Na sua forma, acolhem-se referentes múltiplos, quer a favor da vocação expressiva e autoral de quem narra | desenha, quer, por parte do leitor, como apelo a uma reconstituição interpretada. Considerando o autor, porque este constrói directamente a função do narrador, enquanto anunciador e criador, liberta-se e evoca-se uma realidade criada. Referindo o leitor, pois cabe-lhe uma reconstrução diversa e continuada da narração, seguindo um apelo pessoal, que a riqueza de uma dinâmica estrutural própria, em BD, oferece e motiva.

Nesta simbiose entre autor e leitor, vocábulo e ícone, e, ideografia e leitura, radica a natureza de um desenho que orienta, organiza e dá forma à forma do discurso narrativo especifico da Banda Desenhada.

Enquanto elemento formal simultaneamente frequente e facultativo, o texto integra-se nas pranchas de BD seguindo um leque tipológico fundamental, relativamente à sua localização, generalização visual e forma.

A função do texto ultrapassa os limites de um papel exclusivamente dedicado ao estabelecimento de diálogos e narrativas. Evidenciam-se cinco acções textuais bem definidas:

Peritextual | Narrativa | Dialógica | Onomatopaica | Ficcional

As dimensões textuais na BD. A partir do suporte – prancha, onde se trava uma “batalha” dialógica, segundo duas direcções opostas e essenciais:

– A réplica do concreto > Materialidade > Direcção denotativa > objectividade

– A construção do imaterial > Imaterialidade > Direcção conotativa > subjectividade

 Sendo também estes, os dois desafios principais que todo o narrador enfrenta, aqui sinalizados através das setas a vermelha e a azul.

Peritextual – Peritexto

Um papel peritextual [peritexto] pode encontrar-se nos diversos planos da edição. Segundo uma relação limítrofe entre os textos assim designados e os elementos internos da obra BD. O título, ou o sub-título colocados na capa, nas badanas ou na lombada, assim como as notas que figuram marginalmente em qualquer página da edição, são exemplos de peritexto.

Na colocação em página dos elementos centrais que referem o conteúdo e a identificação da obra recorre-se principalmente aos recursos peritextuais. No caso acima ilustrado, esses estão assinalados pelas setas laranja sobre o plano de uma capa (capa | lombada | contra-capa). Os indicadores verdes referem elementos técnicos de controlo e finalização dimensional da capa. Estes aspectos são válidos para qualquer publicação, independentemente da natureza da obra, seja um tratado de literatura ou uma BD.

Ao peritexto atribui-se a função de paratextualidade, em virtude da sua relação limítrofe face à narrativa principal, assim definido, a partir da hipotextualidade base que serviu de referência argumentativa ao desenvolvimento e desenho da própria BD.


Os restantes tipos de texto enquadram critérios formais e estruturais específicos ao meio, ao longo do desenvolvimento da narrativa desenhada.

Narração

O texto tipificado como narração (voz-off)1, esclarece e assegura uma coesão de controlo temporal e espacial.

Assegura em muitos casos, que as sequências possam ser desenhadas em plena liberdade criativa e autoral, sem a perda momentânea do controlo de continuidade da própria história.

A sua função próxima à aplicação de uma cinemática auxiliar (controlo e confluência de tempo, acções e propriedades), permite a existência de uma sincronia paralela, quanto à inserção de contextos, não passíveis de incluir no discurso desenhado.

A par com o ritmo visual e compósito das vinhetas, a sua função recitativa introduz uma natureza melódica, na marcação de um tempo e de um compasso, progressivamente insinuada ao longo da leitura.

Diálogo

Formalmente, os diálogos são apresentados em balão. Sendo este último, um dos termos especificamente, muito comum em BD. No plano dialógico, o texto é um elemento de profícua variabilidade gráfica. Com frequência, encontra-se na sua forma mais vernaculizada, seguindo uma grafia normal, ou corporizando um sentido particular, expressando graficamente um ânimo e uma trama. 

Por vezes, o diálogo transforma-se em mediador gráfico, assumindo uma imagem visualmente expressiva e, assim, a palavra grafa uma ampla complexidade formal, enquanto produto do verbo e da sua exteriorização gráfica. 

O plano dialógico é simultaneamente um somatório:

– De uma primeira realidade construída a partir do suporte, onde se estabelece um diálogo formal, mas não verbal, fundado na relação plástica dos meios e dos recursos expressivos.

– De uma segunda construção, consagrando-se a representação de um discurso verbal activo.

É a partir da fusão destas duas realidades que se oferece, ou apresenta-se a forma dialógica final.

Enquanto elemento estrutural da narrativa BD, o Balão transporta uma taxinomia simples. Os elementos “braço” e “cabeça” constituem o corpo do Balão. O “braço” indica ou aponta a origem do Emissor. A “cabeça” transporta e declara o conteúdo ou Segmento do diálogo, na prática, com capacidade em diferir a informação. Formal e funcionalmente, a estela representa um arquétipo comum, relativamente, aos balões e às vinhetas introduzidas na BD. Respeitando-se esta anatomia, toda e qualquer forma pode representar o duplo vocal que o balão desempenha

Grupo A – Tipologia expessiva

A1 – Fala | A2 – Pensamento Sonho | A3 – Segredar | A4 – Gritar (quase onomatopaico)

B1/ B2 Formas circulares e rectangulares C1 – Alteração de orientação D1 – Variação da profundidade da incrustação do Balão

Algumas variáveis formais dos indicadores.

– Capa, Badana, etc

Cenográfico

Narrativa

Onomatopaico

Diálogos

>Iconização

>Funções do texto

Apresentação e continuidade

Transmissão, dramatização e acção

Temporalidade e ritmo

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