desenho e design

A partir de tudo (Em Conclusão)

A partir de quase tudo, quase tudo poderá ser conduzido e realizado. A este propósito, uma estudante colocou a questão dos limites de criação formal nos sistemas pictográficos. Concretamente, se estes obrigariam a uma concepção mais ou menos rígida de um sistema pictográfico, seguindo as formas propostas por Neurat no sistema Isotype.

As respostas a esta questão valorizam duas esferas importantes:

A primeira sobre os limites inultrapassáveis de qualquer sistema de informação, considerados os aspectos de reacção, legibilidade, interpretação e ergonomia visual. A utilidade principal que um sistema pictográfico apresenta, reside num conjunto de respostas qualificadas. Evitar falhas de percepção e dificuldades na interpretação, gastar o mínimo tempo de leitura e integrar-se harmoniosamente no espaço onde foi aplicado.

A última reúne alvos não menos importantes. Como estruturar a diferença, capitalizando a identidade de um local. Como construir a semântica visual que singulariza uma natureza cultural envolvente. Aspectos que permitem ampliar a leitura e a fruição de um espaço.

Em 1988, enquanto aguardava transporte para regressar a casa, vindo de uma visita de estudo à bienal de Veneza, comprei na tabacaria do aeroporto de Milão a revista CONTEMPORANEA (pomposamente apoiada no sub-título: “International Art Magazine”). Valeu a pena pelo artigo sobre Markus Raetz e a fotografia de um seu trabalho de 1982 “4Heads“. A “4 Heads” é uma instalação realizada recorrendo a 35 folhas de eucalipto. Progressivamente, o sentido gráfico do material escolhido, ganha na síntese da linha a evocação de 4 cabeças presentes através de uma singularidade plástica e expressiva, simplesmente muito diferente do que é frequente ver.

Quase tudo poderá ser aproveitado, lido, interpretado e aplicado. A linha, enquanto estrutura conceptual, está para o campo expressivo da comunicação como elemento ordenador. A matéria poderá ser tudo aquilo que, colocado em cena, interpreta uma identidade e lega uma mensagem.

Ao modo de uma homenagem simples, resolvi percorrer a descoberta de Markus Raetz como mais uma possibilidade em estudar e gerar visualmente um elemento pictográfico. Na realidade, a simplicidade é um bom princípio e o conceito ready made que as folhas oferecem enquanto linhas de face, depressa alimenta novas propostas.

O centro da nossa atenção dedica-se à procura da posição e do local a ocupar pelo elemento folha. A nossa visão especializa-se pouco a pouco. Pequenas subtilezas no contorno das folhas podem assegurar um resultado mais ajustado aos conceitos a atingir. Progressivamente, encontram-se inúmeros resultados.

Esta é uma primeira lição que Markus Raetz nos oferece: conceber e significar, a partir de quaisquer elementos, materialmente acessíveis na construção de resultados visuais diferentes, plenos de significado e conotação.

A segunda lição implícita transparece no facto do mundo envolvente constituir-se como oferta expressiva e significante. Nesta possibilidade tudo ou quase tudo se oferece para escolha e ensaio, segundo as regras e os conceitos que o próprio terá satisfação em descobrir ou inventar.

Ensaio pictográfico – A distribuição de folhas com forma adequada e localizadas segundo a estrutura geral de um rosto, permite realizar variantes de quadro, de escala e valor.

No ensaio seguinte geraram-se pictogramas de WC. O primeiro conjunto [ I ] comporta as variantes estabelecidas a partir de materiais, cor e valor, formalizando-se os elementos de diferenciação e identidade geral entre os rostos feminino e masculino. O aumento da espessura nos lábios é o referente feminino e a adição de dois traços acima dos lábios, em referência ao bigode, estabelece o marcador do signo masculino.

No segundo conjunto [ II ] estabelece-se essa diferenciação a partir de uma alusão aos genitais.

A leitura é tanto mais fechada ( monossémica ), quanto maior seja a proximidade ao espaço de aplicação do sistema pictográfico. O local em parte é responsável pelo contexto gerado e pela congruência daí resultante, em termos de monossemia ou polissemia. Quer isto significar, que estes signos longe do local a que se destinam, ou sem uma sinalização prévia – WC, dificilmente traduzem um objectivo. Pese embora, o facto de todos os signos acabarem por ser, mais ou menos, afectados pelo contexto, em que se encontram inseridos ou aplicados. Os sistemas pictográficos já lidos e assimilados contam a seu favor com alguma estabilidade na leitura, sem que o local da sua aplicação pese tanto sobre o contexto e a interpretação da sua forma.

Nas mensagens visuais, as gradações de leitura dependem dos objectivos estabelecidos no programa de comunicação. Nem todos os projectos suportam uma ampla e livre semiose. Sistemas pictográficos a aplicar em aeroportos exigem um sentido mais estrito, para que não ocorram erros de interpretação. Por outro lado, o universo de utilizadores é amplo e culturalmente diversificado. Factores que somados justificam e apelam à simplicidade e à coerência de significados, sinais e formas.

I                                                                                        II

Materiais e forma

pict12a1

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