desenho e design

Sobre as medalhas do Escultor Ricardo Veloza

No Nº 51 da revista Islenha, desenvolvo artigo dedicado à medalhística da autoria do escultor Ricardo Veloza.

Esta revista focada em torno de temas culturais das sociedades insulares  atlânticas, pode ser assinada e adquirida a partir do seguinte contacto:

Corina Ferreira Gomes

islenha.assinaturas@gmail.com

lojalivros.dracmadeira@gmail.com

islenha 51

Sobre as medalhas do escultor Ricardo Veloza

Celso Caires – Universidade da Madeira

«É impossível segurar apenas um objecto material — um cubo de gelo, ou uma lata de refrigerante, ou uma estátua de barro — na nossa mão. Onde quer que pareça haver apenas um só objecto material, há na verdade dois.» 1

Theodore Sider

Resumo

O presente artigo dedicado ao escultor Ricardo Veloza, introduz a diversidade da sua obra no domínio da medalhística. Do legado formativo, académico, ao desenrolar de um trabalho, reconhecido e continuado nesta área da escultura, abordam-se as chaves tecnológicas e estéticas mais importantes.

Palavras-chave

Arte Portuguesa; Belas Artes; Escultura; Medalha; Design; Comunicação Gráfica; Tipo; CNC; Ricardo Veloza

Ricardo Jorge Abrantes Veloza nasceu no Brasil, em 1947. Exerceu o cargo de Director Regional dos Assuntos Culturais entre 2003 e 2004. A sua maior dedicação sempre se afirmou repartida entre o ensino, a construção da obra escultórica e a incursão especializada nos domínios que confinam o artesanato e o design, particularmente aquando dos períodos em que, a partir de 1988, assumiu o papel de vogal da Direcção do Instituto do Bordado, Tapeçaria e Artesanato da Madeira, para o qual foi, mais tarde, nomeado presidente do conselho de administração (1997).

Versátil estudioso e explorador da forma plástica, em domínios aparentemente diversos, de amante da concepção automóvel a realizador de esculturas, do cartaz à imagem de identidade corporativa, como, aliás, os inúmeros projectos assim o testemunham. Ainda, de premeio com a vasta obra que construiu entre as décadas 80 a 10 do século XXI, assinalo a presença do desenhador insaciável, quer como artista vocacionado e liberado para o desenho enquanto linguagem expressiva e autoral, quer como projectista nas diversas áreas, para as quais tem vindo a encontrar e a concretizar respostas formais, que, certamente, são missão central nos criadores artísticos.

Antes de apresentar a vasta obra do escultor Ricardo Veloza, no domínio da medalhística, faço aqui um breve parêntesis de tempos idos, memória franca e positiva, sobre um passado comum.

Conheço o Ricardo Veloza desde o ano de 1975, na antiga Quinta das Angústias (actual Quinta Vigia), aquando da realização do meu exame de admissão ao Curso de Belas Artes. Ingressei na AMBAM (Academia de Música e Belas Artes da Madeira), como estudante do primeiro ano do curso de Artes Plásticas Escultura, no ano lectivo de 1975 /76, à data que o escultor Ricardo Veloza iniciou a sua carreira docente, como assistente do Mestre Escultor Pedro Augusto Anjos Teixeira2.

Guardo dos docentes que impulsionaram a transição da antiga Academia, de organismo privado para instituição oficial pública, numa época de entusiasmo e partilha, de experiências e saber, uma amizade que o tempo não apaga, assim como uma grande saudade daqueles que já partiram, como o Mestre Anjos Teixeira, a Pintora Élia Pimenta e o Escultor Maurício Fernandes.

Ricardo Veloza terminou o Curso Complementar de Escultura em 1975, já sob a égide do pretérito Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira (ISAPM) , que nesse ano abria as portas sucedendo-se à antiga Academia de Música e Belas Artes da Madeira (AMBAM).

Até à data assinalada, os cursos de Belas Artes na Madeira, em Escultura e em Pintura, seguiram o formato dos seus congéneres de Lisboa e Porto, pois foram até 1974 extensões da escola mãe – ESBAL. Na generalidade dos propósitos desenvolvidos, quanto aos âmbitos pedagógicos e artísticos, o ensino ministrado sempre se pautou por uma natural coincidência face às práticas educativas exercidas nas ESBAS (Escolas Superiores de Belas Artes), que desde a década de 50 asseguraram um nível formativo paralelo aos graus conferidos no ensino universitário. Aliás, o contrário não poderia ter acontecido, porque às escolas superiores de belas artes aplicava-se o estatuto definido no DL Nº41363, de 14 de Novembro de 1957, instrumento que, escrupulosamente, estabeleceu as respectivas direcções formativas.

Concluída esta brevíssima resenha curricular sobre o autor e a escola que o formou, passo a tratar a matéria deste artigo, centrando na medalhística o objecto principal da minha atenção.

Na sua tese, “DO OBJECTO MEDALHA À MEDALHA-OBJECTO – Famílias, sequências e retrocessos”, dedicada à medalha em Portugal, Andreia Sofia Ferreira adianta alguns aspectos particulares subordinados às questões evocativas de um gosto cultural, marcado pela saga política, que, apesar de cores ideológicas bem diferenciadas, pautou a Europa da primeira metade do século XX, intrinsicamente convocada em torno de uma certa eugenia3. Daí a supremacia associada ao papel, que a medalha enquanto marca e evocação memorial tem desempenhado nos contornos e na exaltação de um certo conceito de nacionalidade. O que bem caracteriza a estagnação estética e formal que prescreve a medalhística, durante esse lapso de tempo: “…Após a esclerose comemoralista da primeira metade do século, a medalha renasce em Portugal nos anos 70 a partir de uma acção intervencionista desenvolvida por novos autores…”4

Os propósitos de uma natureza intrinsecamente dual, quer quanto à escolha da medalha enquanto corolário de uma certa forma evocativa, quer em referência ao seu papel historiográfico, sinalizador de um agente ou evento, torna a medalha uma fonte memorial por excelência, enquanto marca estética e objecto comemorativo de dimensão portátil. Fazendo um pouco de humor, a medalha está para o laptop como o monumento está para o servidor de larga escala e potência.

A medalha representa, assim, um sinal de poder e do exercício desse poder enquanto controlo. Um modo de estabelecer uma representação continuada da história, estruturando vínculos bem definidos entre passado e presente, seguindo a liturgia e a celebração que melhor possa comprazer uma dada realidade.

Daí que, esta afirma-se como um dos objectos mais contíguos ao exercício do próprio poder, pois, em si mesma, é a acentuação de uma dada direcção ou interpretação histórica.

O conjunto de medalhas que o escultor Ricardo Veloza amavelmente entregou para minha selecção, não foge a essa declaração formal e política, que os eventos comemorados inevitavelmente transportam.

A herança de Pedro Augusto Anjos Teixeira

_MG_0832

Medalha Polícia de Segurança Pública

Material: Bronze | Técnica: Cunhagem | Dimensões: 75×75 mm | Ano 1980

A primeira medalha realizada por Ricardo Veloza, data de 1980. A escolha formal da fonte verbal, assim como a respectiva composição, associada à modelação naturalista da figura, transparecem a influência notória do Mestre Anjos Teixeira, por sinal, quem lhe propôs a realização deste projecto. A presente medalha foi apenas cunhada em plano anverso, não sendo constituida, como é frequente, pelo respectivo reverso. O recurso directo a uma natureza simbólica, esfinge de luz e orientação, farol de ordem e paz, sem data e mote verbal, torna esta medalha um suporte de manifesto idealismo, focada no significado de um papel imaterial, transcendendo a própria relação profissional que a missão da PSP encerra. A retomar a história do século XX, diria que esta é uma mensagem declaradamente romântica, que nos remete ou anuncia a tendência de uma certa cultura Deco, transversalmente uma constante na obra deste autor.

Sem abordar as questões de âmbito conceptual, na maioria das medalhas inicia-se a sua realização material sobre o tradicional plano de vidro, no qual o escultor modela o original em plasticina5. Material que substitui desde o século XIX a tradicional mistura à base de cera de abelha, anteriormente, tanto usada na técnica de fundição por cera perdida, como na realização e modelação de elementos escultóricos de pequena dimensão. É a partir desse resultado que se retira uma cópia negativa, de modo a obter um positivo, normalmente em gesso de dentista, em virtude da sua resistência e rigidez. Posteriormente, será enviado à oficina de cunhagem, para a produção de um cunho reduzido à escala da prensagem final.

Este é o processo geral, que envolve a realização, a formação e a cunhagem de uma medalha, itinerário minucioso e complexo, sempre com a reserva da revisão geral do conhecimento que o escultor e o gravador aplicam nas diversas etapas do processo da criação de uma medalha.

_MG_0830

Comemoração dos 25 anos da empresa Vasconcelos & Couto, LDA.

Material: Bronze | Técnica: Cunhagem | Dimensões: 78×78 mm | Ano 1981

A medalha comemorativa dos 25 anos da empresa Vasconcelos & Couto, LDA. apresenta no seu anverso a composição de elementos iconográficos organizados cronologicamente. Segundo uma sucessão de vistas6, posterior e lateral, os automóveis balizam as diversas etapas que durante o tempo, têm vindo a estabelecer a identidade da empressa CITROEN.

Esses modelos introduzem as marcas temporais, que o autor interpretou como relevantes para a história da evolução dos modelos CITROEN. Emergem do plano de fundo, de forma idêntica à citação do símbolo da marca que os acompanha. Automóvel, modelo e símbolo coexistem com o mesmo tratamento e pregnância visual.

A assinalar no respectivo reverso, a introdução de elementos de personificação do divino, expressos aqui através das folhas de louro, em recuperação ou alusão à perenidade de um certo classicismo.

O início de um sentido de comunicação gráfica em medalhística

_MG_0834

Doca para embarcações de pequeno calado. Funchal. Madeira

Material: Bronze | Técnica: Cunhagem | Dimensões: 108×108 mm | Ano 1984

Outra direcção conceptual está patente na celebração da conclusão da Marina do Funchal. O recurso a uma linguagem plástica nivelada e mais próxima da comunicação gráfica geral, quer na síntese das embarcações, quer na escolha criteriosa da fonte verbal, não patilhada7 e manipulada em kerning8 e espaçamento condensado, torna esta medalha num caso especial. Segue uma outra inicialização estética, já longe do caminho simbólico e neo-naturalista percorrido nos trabalhos anteriores. Outro aspecto evidente, prende-se com o facto dos elementos modelados terem atingido menor espessura e consequentemente uma maior subtileza.

Enquanto parâmetro distintivo da medalhística de excelência, quanto menor a projecção do volume, mais etéreos se apresentam os elementos na face da medalha. A subtileza é um resultado determinado pela qualidade plástica do relevo e um aspecto fundamental a considerar na cunhagem. De facto, quanto menor a espessura e mais suave a transição entre as direcções superficiais das formas, melhor será o resultado final do processo de pressão do cunho sobre o metal.

O Mestre Anjos Teixeira assim o aconselhava, nas suas aulas de medalhística.

A medalha de composição foto mecânica

Apartir da década de 80, generalizam-se novos procedimentos para realização de bases e originais na preparação medalhística. A vulgarização da xerocópia, a introdução de sistemas computadorizados para uso doméstico, constituem, porventura, as conquistas mais marcantes de uma época, pródiga na emergência de uma ampla oferta tecnológica. A plasticidade inerente à modelação convencional a partir de plasticina, em inúmeros casos, cede lugar ao recurso a técnicas fotográficas associadas a meios de natureza mecânica e química.

A inclusão de novas vertentes tecnológicas introduzem assim uma sintaxe estética particular, em que a linguagem própria das imagens a traço, ou fundadas na silhueta (desenho), afirmam-se como o valor expressivo e formal de maior evidência.

_MG_0828

Cimentos Madeira, LDA. Terminal do Porto Santo.

Material: Bronze | Técnica: Cunhagem | Dimensões: 89×89 mm | Ano 1987

_MG_0868

50 Anos ao serviço da região. União Comercial (Funchal), Lda. 1939 | 1989

Material: Bronze | Técnica: Cunhagem | Dimensões: 89×89 mm | Ano 1989

_MG_0836

I Congresso Português de Anestesiologia. Funchal 25-28/ 4/ 1991

Serviço de Anestesiologia do Centro Hospitalar do Funchal

Material: Bronze | Técnica: Cunhagem | Dimensões: 78×78 mm | Ano 1989

_MG_0825

100 ANOS. CLUBE SPORTS DA MADEIRA. 1909 – 2009.

Material: Bronze/Banho de prata | Técnica: Cunhagem | Dimensões: 89×89 mm | Ano 2009

À natureza escultórica dos objectos modelados a teco9, seguindo a via próxima do pleno e contínuo relevo, como no caso da “Medalha Polícia de Segurança Pública”, sucede-se o caminho oferecido pelos novos recursos tecnológicos ao serviço de uma interacção mais planiforme da composição.

As 4 medalhas apresentadas, são disso exemplo. Os meios de imagem permitem a exploração de um caminho estético, acentuadamente gráfico, não só em virtude do desenho a traço que as caracteriza, mas também pela separação entre forma e fundo, bem evidente, graças à patine química aplicada. A conjugação entre gravação nivelada e tratamento químico do fundo induz um resultado final muito próximo aos da posterização10 de alto constraste, cujo valor mínimo se situa ao nível 2; nos casos referidos, claramente, estabelecidos a partir da oposição entre relevo / saliência e fundo / depressão. [Cimentos Madeira, LDA. Terminal do Porto Santo | 50 Anos ao serviço da região. União Comercial (Funchal), Lda | I Congresso Português de Anestesiologia ]

Actualmente, fabricadas em resina, fotogravadas, estampadas, fundidas e até em pleno volume, ultrapassando o dualismo tradicional entre verso e anverso, são inúmeras as vias de concepção e produção no domínio da medalhística. A evolução da fresagem CNC11 permite combinar as inúmeras alternativas formais, de meios e recursos, na preparação de cunhos, na gravação, na cunhagem ou nos acabamentos finais de uma medalha. Este diálogo de maior plenitude entre o mundo conceptual, a realização directa e a produção final, estabelece uma maior aproximação ao desenho, evidenciando os argumentos da sua linguagem em detrimento do volume, enquanto excelência da modelação escultórica. A diversidade das abordagens possíveis, em virtude do menor custo final, afigura um leque muito interessante de opções técnicas, essencialmente, ao reduzir o tempo das encomendas e, ampliando as alternativas formais e estéticas, assim, contribui para a popularidade da medalha, enquanto objecto de memória inaugural. A medalha CLUBE SPORTS DA MADEIRA é exemplo dessa partilha directa entre o desenho e os recursos CNC.

O tratamento tipográfico enquanto pacto narrativo visual

_MG_0821

PORTA DE CASA NOBRE SEC XVII RUA DOS ESMERALDOS: FUNCHAL SEDE DA CPRM MARCONI. 1991

Material: Bronze | Técnica: Cunhagem | Dimensões: 79×79 mm | Ano 1989

Entre o plausível de uma certa norma verbal e a harmonia dos caracteres, enquanto conjuntos parcelarmente monossémicos, o autor manipula letras e palavras, atribuindo incidências formais diversas, quer no estabelecimento de ritmos de identidade visual a partir dos elementos texto, quer explorando o tempo e a variação de uma narrativa ordenada, também, com base nas propriedades de escala e dimensão.

Origina-se a relação escrita da mensagem em torno de um pacto visual narrativo, fundada sobre as categorizações sintácticas e semânticas da linguagem plástica. A natureza da escrita, enquanto forma visual e gráfica, convoca um universo de cumplicidade entre autor e leitor, no plano da fusão do texto com a forma esculpida.

O tipo / letra assegura a identidade de um conjunto coerente e diverso, segundo a sua origem catamórfica12, que o diferencia, enquanto chave alfabética constitutiva das palavras e nas frases. Assim, os vínculos da leitura produzem um conjunto formal sistematizado e coeso.

As medalhas comemorativas da Inauguração das Novas instalações da Marconi, do 40º Aniversário da Feira Agropecuária e do IV Congresso dos Advogados Portugueses demonstram a via do tratamento tipográfico, enquanto parcela importante na construção fundamental de um discurso plástico / formal, concorrente a uma apresentação significante dos respectivos eventos.

_MG_0851

1995. 40º ANIVERSÁRIO. FEIRA AGROPECUÁRIA. Região Autónoma da Madeira. Secretaria Regional da Agricultura, Floresta e Pescas.

Material: Bronze | Técnica: Cunhagem | Dimensões: 68×68 mm | Ano 1995

_MG_0870

SUMMUM JUS SUMMA INJURIA. IV CONGRESSO dos ADVOGADOS PORTUGUESES. FUNCHAL 18 a 21 Maio, 1995

Material: Bronze | Técnica: Cunhagem | Dimensões: 79×79 mm | Ano 1995

Apesar de sujeitos a uma flutuação não rectilinea, os caracteres apoiados em linhas de base complexa, resumem propriedades de legibilidade, tão fundamentais à composição tipográfica. Os diversos resultados enfatizam qualidades formais baseadas na variação do peso visual dos elementos.

Fusão entre a forma e o fundo

_MG_0838

1997 | 25 Anos da RTP Madeira. RTP Madeira 1972.

Material: Bronze | Técnica: Cunhagem | Dimensões: 78×78 mm | Ano 1997

Na categorização dos projectos maioritariamente dedicados ao automobilismo, com especial destaque para a temática desportiva, é verificável uma tendência específica na concepção geral deste grupo de medalhas.

A relação entre forma e fundo estabelecida em temáticas anteriores, segundo o apanágio de uma visão graficamente tipificada, cede lugar a uma formalização plástica naturalista, recuperando e desenvolvendo-se o caminho de uma certa imersão dos elementos significantes sobre um fundo, enquanto cena de acção de uma cenografia transformada.

A simbolização de um elemento, organismo que sulca, rumo ao futuro, como se constata na medalha 25 Anos da RTP Madeira, é o mote declaramente perseguido nos objectos comemorativos do Clube de Automóveis Clássicos e do CAMPEONATO DE PORTUGAL. CAMPEONATO DA MADEIRA | 1909 – 2009 50 ANOS VOLTA À ILHA. 30 ANOS NO CAMPEONATO DA EUROPA. A transformação dinâmica dos elementos naturais envolventes cria uma outra noção temporal, assumindo uma expressão de velocidade e distorção, que o fundo assim participa,amplia e dinamiza.

A fluidez da modelação aplicada, transfigura e interpreta essa dicotomia entre espaço e tempo, perseguindo, ao ritmo dos veículos, uma presentificação de movimento e velocidade.

_MG_0865

Clube de Automóveis Clássicos. Madeira | XV VOLTA À ILHA DA MADEIRA.

Material: Bronze | Técnica: Cunhagem | Dimensões: 89×89 mm | Ano 2002

_MG_0861

Clube de Automóveis Clássicos. Madeira | XVI VOLTA À ILHA DA MADEIRA.

Material: Bronze | Técnica: Cunhagem | Dimensões: 89×89 mm | Ano 2003

_MG_0843

CAMPEONATO DE PORTUGAL. CAMPEONATO DA MADEIRA | 1909 – 2009 50 ANOS VOLTA À ILHA. 30 ANOS NO CAMPEONATO DA EUROPA

Material: Bronze | Técnica: Cunhagem | Dimensões: 89×89 mm | Ano 2009

Incrustação de elementos

_MG_0848

ROTA DA INOVAÇÃO | MADEIRATECNOPOLO FREE SCIENCE PARK

Materiais: Bronze / Aço Inox polido | Técnicas: Cunhagem / Incrustação | Dimensões: 89×89 mm | Ano 1996

_MG_0823

5º CONGRESSO DAS COMUNIDADES MADEIRENSES | Funchal Setembro 2000

Materiais: Bronze / Esmalte | Técnicas: Cunhagem / Incrustação | Dimensões: 89×89 mm | Ano 2000

A combinação de elementos em materiais diferentes, é a marca das notações expressivas e plásticas das medalhas realizadas entre 1996 e 2004. Essas criações, assinalam a hegemonia e os âmbitos de um certo discurso autonómico, na procura da evidência e de uma relação tácitamente visual e simbólica. Entre o disco, a forma convencional da medalha, e, a esfera, elemento de representação dinâmica, afirma-se o corolário de uma plataforma de inovação, progresso e identidade regionais. Expressão de conquista e afirmação política, enquanto imagem de exteriorização cultural, servindo um modelo quase histriônico de propaganda e valor.

_MG_0854

Jornadas Florestais Insulares. Set. 2000. Laurissilva Património Mundial

Região Autónoma da Madeira | Região Autónoma dos Açores

Materiais: Bronze / Aço Inox polido | Técnicas: Cunhagem / Incrustação | Dimensões: 89×89 mm | Ano 2000

_MG_0863

25 Anos de Autonomia. Região Autónoma da Madeira | Governo Regional

Materiais: Bronze / Aço Inox polido | Técnicas: Cunhagem / Incrustação | Dimensões: 89×89 mm | Ano 2001

Das rotas em direcção ao futuro e sobre os percursos do presente, o escultor soube evitar a tendência alegórica de um certo barroquismo que, frequentemente, reitera as celebrações da conquista e a edificação de uma identidade, tantas vezes exacerbada. Evitou o recurso ao estereotipo do leque iconográfico habitual, que no papel de super signo, frequentemente, ordena a criação de imagens de referência insular e autonómica (o absurdo constante do mapa da Ilha da Madeira utilizado em qualquer estrutura de comunicação gráfica, é disso exemplo).

_MG_0871a

40 Anos de Música. Orquesta Clássica da Madeira. 1964 – 2004

Materiais: Bronze / Aço Inox polido | Técnicas: Cunhagem / Incrustação | Dimensões: 89×89 mm | Ano 2004

_MG_0871

Na abordagem e concepção de uma medalha, a natureza da linguagem plástica centra-se na primazia do relevo e das suas variantes. A topologia geral do objecto medalha resume a excelência de estados de curso e dinamização, ao nível da entidade primordial que é o plano de implantação dos volumes. Aí reside o lugar expressivo do relevo, como tonalidade escultórica, dealbar de uma origem, lugar zero, em qualquer medalha.

Nos 40 Anos de Música. Orquestra Clássica da Madeira, o bronze e o aço polido culminam um resultado extremamente interessante. À feliz conjugação dos materiais, retenha-se a determinação do escultor em conjugar as diversas gamas de relevo. Do pleno-relevo (batuta) ao alto-relevo (mão/maestro), do baixo-relevo (campo verbal) ao relevo negativo (diapasão), vazado; claramente, esta peça propõe uma hermenêutica complexa, mas transparente, apelando a uma dinâmica interdiscursiva rica, na qual os elementos metodicamente colocados em cena, despertam uma semântica convincente e anunciadora, quanto aos significados e possíveis descodificações.

diagra

Signos > 1 Arco de Diapasão > 2 Haste de Metrônomo > 3 Batuta de Maestro.

O arco invertido do diapasão (1), janela de harmonia, desempenha o papel de volume negativo para extração na base, ou disco da medalha. A vareta, resumo de Haste e Batuta (união 23), intersecta e adiciona um resultado material, no espaço vazio resultante. Esta estratégia de simbolização e construção das formas no campo visual restrito do objecto, traduz a orientação polissémica do autor na formalização de um discurso plástico peculiar. A flexibilidade sintáctica do signo “Abertura”, solução repetida nas medalhas que apresentam essa subtracção, inicia a série de um discurso escultórica, em que a interrupção da matéria sinaliza a sugestão de uma leitura, propondo uma ampla resposta paradigmática.

_MG_0847

Centro Internacional de Negócios da Madeira

Materiais: Bronze / Aço Inox polido | Técnicas: Cunhagem / Incrustação | Dimensões: 89×104 mm

_MG_0859

Associação Comercial e Industrial do Funchal, 21 maio 2001

Materiais: Bronze/Latão|Técnicas:Cunhagem/Incrustação|Dimensões:89×89 mm

Tal acontece no caso das medalhas: 25 Anos de Autonomia. Região Autónoma da Madeira – Abertura > Coluna/Portão/Poder/Liberdade; 40 Anos de Música. Orquestra Clássica da Madeira – Abertura > Janela/Rigor/Pauta/Melodia; Centro Internacional de Negócios da Madeira – Abertura > Diapasão/Afinação/Estrutura.

Na medalha sobre a inauguração da sede da Associação Comercial e Industrial do Funchal, a mesma abertura serve de calha, em que desliza uma peça inscrita, imagem de abertura, fecho e versatilidade.

analogiacompar

Tensões, Volume e Origem

Neste grupo de peças, distingue-se uma razão peculiar ao nível do discurso plástico. A exploração da forma enquanto corpo, em alegoria à natureza epidérmica que o reveste, mas também, à sua dimensão orgânica interna, constitui proposta geral do projecto escultórico desenvolvido em Região Autónoma da MAdeira | XX Aniversário 25 de Abril de 1974; Bombeiros Municipais do Funchal. 1888 – 2008. 500 Funchal; 10 Anos de Poder Local | AMRAM Associação de Municípios da Região Autónoma da Madeira. 1964 – 2004.

Uma tectónica que parece ter gerado uma cadeia de impulsos e, consequentemente, na revelação de uma nova organização da superfície, como uma nota reconhecível no corpo das medalhas, conduzindo alterações e fracturas. O que as torna, particularmente, interessantes, ao evocar uma convergência gradual entre estática e dinâmica.

Lembra os processos que, estando na raíz das transformações de natureza geológica, promovem a formação contínua da paisagem natural.

Como, também, acontece na realização do monumento escultórico dedicado à conquista da autonomia.

Salvaguardando a escala relativa dos respectivos eventos e tomando de empréstimo os conceitos da ciência geológica, em alusão aos termos da formação geomórfica, quase, perfeitamente aplicáveis nestes casos, o autor modela a transformação da origem e da noção pre-estabelecida do plano da medalha, construindo um volume, em consequência da aplicação de um diastrofismo controlado. Quer pela oposição de forças verticais de natureza ascendente e descendente – epirogenia; quer a partir de forças laterais – orogenia.

Esses processos aludem a um espaço formal pleno de significações. Na medalha XX Aniversário 25 de Abril a epirogenia é uma proeminência; geração de novas ideias e crescimento de uma perspectiva e de um futuro promissores; sobre o reverso, a rejeição de um modelo político caduco (orogenia divergente).

_MG_0875

Região Autónoma da Madeira | XX Aniversário 25 de Abril de 1974

Materiais: Bronze | Técnicas: Cunhagem | Dimensões: 89×89 mm | Ano 1994

_MG_0839

Bombeiros Municipais do Funchal. 1888 – 2008. 500 Funchal.

Materiais: Bronze / Aço Inox polido | Técnicas: Cunhagem / Incrustação | Dimensões: 89×89 mm | Ano 2008

Certamente, o autor não terá pensado em sequência de qualquer deriva de feição geológica, mas, considerando a evidente imponderabilidade da natureza artística, as analogias formais das alterações terrestres ajustam-se bem a muitos conceitos, inclusive os da formação plástica em escultura.

Pela sua reduzida dimensão, a medalha oferece uma natureza quase pulsátil, plena de intensidade no campo das suas significações. Forma e amplitude visual, afirma através de um relato comemorativo, a construção de um discurso pregnante e historiográfico.

Pelos caminhos escolhidos e encontrados, a medalhística em Ricardo Veloza transporta declaradamente uma matriz escultórica. Reconhece-se uma unidade clássica e simbólica, em ligar e propôr ordens de figuração representativa. Como uma narrativa estabelecida continuamente entre a diversidade temática e a semântica dos respectivos eventos. Critério de uma linguagem construída para além de movimentos estéticos e vínculos de modernidade, assim, afirmando no tempo e no lugar, a epígrafe do seu autor.

A finalizar, retomo a ideia de Theodore Sider13, a matéria é um objecto de suporte, existência. Plataforma do que se cria, de um outro objecto, vislumbre ou ressonância de um mundo a conhecer e a fruir, desafio de um futuro, marca de um presente…

_MG_0841

Beato Carlos Da Áustria. 90º Aniversário da sua morte 1922 2012 | Nª Sª do Monte Padroeira da Diocese do Funchal.

Materiais: Bronze | Técnicas: Cunhagem | Dimensões: 79×79 mm | Ano 2012

Fotografia

Celso Caires

Bibliografia

Howgego, C., Heuchert, V., Burnett, A. | COINAGE AND IDENTITY IN THE ROMAN PROVINCES | Oxford University Press 2005 | ISBN 978–0–19–926526–8

Von Fabriczy, Cornelius | Italian Medals | Duck Worth and Co. | 1904

Ferreira, A. Sofia | DO OBJECTO MEDALHA À MEDALHA-OBJECTO – Famílias, sequências e retrocessos | UNIVERSIDADE DE LISBOA, FACULDADE DE BELAS-ARTES | 2011

1

Capítulo 7, Constituição, p. 115. in Enigmas da Existência: Uma Visita Guiada à Metafísica, de Earl Conee e Theodore Sider.

2

Foi professor da Academia de Música e Belas da Madeira e do Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira, autor de de extensa obra no domínio da estatuária pública. A título de exemplo refere-se “A Florista”, bronze instalado no jardim do Campo da Barca, assim como o Monumento ao Trabalhador Madeirense, na vertente nascente do Parque de Santa Catarina.

3

Termo criado em 1883 por Francis Galton, significando “bem nascido”. Além de Galton, outros autores, cientistas e políticos, dedicaram particular atenção à melhoraria das sociedades humanas, elaborando teses genéricamente baseadas na supremacia e no apuramento racial, as quais viriam a ter na radicalidade nacional socialista alemã da II Guerra Mundial, o mais ignóbil dos desfechos prováveis.

4

Andreia Sofia Ferreira In Resumo, MESTRADO EM ESCULTURA – ESTUDOS DE ESCULTURA, 2011

5

A plasticina ou plastilina foi inventada em 1880, pelo farmacêutico Franz Kolb. Essencialmente é um material composto por sais de cálcio, vaselina e outros compostos alifáticos.

6

Modelos ortogonais e visuais próprios da concepção gráfica rigorosa na área do projecto industrial.

7

O mesmo que “não serifado”, termo que designa as fontes sem os pequenos traços ou apêndices no final da estrutura das letras. Por oposição às fontes patilhadas (de patilha) ou serifadas, herança da escrita esculpida em pedra, acabadas em patilha de modo a assegurar um mais duradoura conservação.

8

Ajustar proporcionalmente o espaço entre caracteres, de modo a alcançar um resultado visualmente apelativo.

9

Instrumento auxiliar utilizado na modelação de barro ou plasticina em escultura.

10

A posterização implica a conversão abrupta de uma gradação contínua de tons. Originalmente realizada através processos fotográficos para criar imagens para cartaz. Objectos, cuja distância de visualização requerem maior síntese tonal e, consequentemente, uma maior acentuação e pregnância visuais, ao incurtar as etapas de transição tonal.

11

CNC – Controle Numérico Computadorizado. Avanço significativo no controlo de máquinas de produção mecânica, permitindo definir com precisão operações de fresagem e outras por via digital.

12

Segundo Bonsiepe, G. – Teoria y prática del diseño industrial. “Se dice que son catamorfos aquellos elementos que ni son congruentes ni afines, pero que están ligados por una común relación interfigural. Ejemplo: un alfabeto, cuyas letras tienen formas asaz diversas, pero que gracias a la similaridad de detalles formales se reciben como pertenecientes a un mismo sistema”

13

Filósofo americano centrado nos domínios da metafísica e da filosofia da linguagem

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: